Confeço que nunca tinha admitido, mesmo depois de tantos anos, como ela era minha preferida.
As duas eram paricidíssimas, porém mais que sua mãe, sempre soube qual era qual. E na verdade a Minha Preferida era muito mais charmosa. Sempre fora, desde criança. Seus cachos quase que perfeitos, invejavam a qualquer um. As pessoas passavam os olhos por ela e a sabiam mais bonita. Não que a Outra fosse feia, pelo contrário. Sempre fora muito graciosa, mas era meiga de mais. Boa de mais. O que fazia a Minha Preferida especial.
Sempre pensei tratar as duas iguais, mas na verdade, sabia que me preucupava mais em agradar a Minha Preferida, enquanto pra Outra, fazia tudo de qualquer jeito, mesmo porque ela nunca se importou com essas coisas. Mas a Minha Preferida era caprichosa, gostava de ter as coisas que ela queria e como ela queria, era exigente. As vezes me pegava brabo com ela, e a perdoava sem pensar duas vezes, enquanto a Outra, quando me enfurecia, tirava-lhe alguns privilégios. Nunca fui muito rigoroso e nem mimei nenhuma delas, mas a Minha Preferida gostava de se revoltar, enquanto a Outra era certinha em tudo.
As duas eram muito diferentes, mas só a Minha Preferida parecia entender, e tentava acentuar o máximo possível essa diferença. Minha Preferida sempre procurava fugir da irmã, que a perseguia. E já não bastando serem gêmeas, a Outra procurava andar como siamêssas.
A Outra tocava piano desde os quatro anos, instrumento que eu mesmo lhe ensinara no começo, e pelo qual era completamente apaixonado. Mas a Minha Preferida dançava balé. Talvez por ser diferente de mim e não ter os meus defeitos, acabei me encantando mais por seus pés com sapatilhas do que pelos dedos em harmonia perfeita da Outra. E mesmo quando Minha Preferida trocou a dança pela guitarra, cresci meu gosto por rock e aprendi a gostar dos barulhos e ruídos que fazia durante a tarde. Alguns me diziam que ela estava ficando rebelde de mais, mudara o corte de cabelo e o jeito de vestir, a fim de criar uma personalidade, que obviamente, fosse diferente da irmã. Mas não me importava, gostava do seu jeito adolescente de ser, sempre me surpreendendo e aprontando. Enquanto a Outra, era a filha perfeita que um dia percebi rejeitar.
Com o tempo entendi que filhos não se comparam e aprendi a amar as duas iguais. E sem gostando mais de uma do que da outra.
Hoje, depois de anos, ambas já crescidas e casadas, espero-as pra jantar. Reservo o lugar do meu lado pra Minha Preferida, que deixou de ser preferida, e junto ao prato, de presente, um anel de ouro simbólico, com um embrulho que eu mesmo preparei. E do outro lado da mesa, o lugar da Outra, com uma bijoteria que achei pela casa, num lindo pacote florido de supermercado.
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