domingo, setembro 3

Minha preferida

Confeço que nunca tinha admitido, mesmo depois de tantos anos, como ela era minha preferida.
As duas eram paricidíssimas, porém mais que sua mãe, sempre soube qual era qual. E na verdade a Minha Preferida era muito mais charmosa. Sempre fora, desde criança. Seus cachos quase que perfeitos, invejavam a qualquer um. As pessoas passavam os olhos por ela e a sabiam mais bonita. Não que a Outra fosse feia, pelo contrário. Sempre fora muito graciosa, mas era meiga de mais. Boa de mais. O que fazia a Minha Preferida especial.
Sempre pensei tratar as duas iguais, mas na verdade, sabia que me preucupava mais em agradar a Minha Preferida, enquanto pra Outra, fazia tudo de qualquer jeito, mesmo porque ela nunca se importou com essas coisas. Mas a Minha Preferida era caprichosa, gostava de ter as coisas que ela queria e como ela queria, era exigente. As vezes me pegava brabo com ela, e a perdoava sem pensar duas vezes, enquanto a Outra, quando me enfurecia, tirava-lhe alguns privilégios. Nunca fui muito rigoroso e nem mimei nenhuma delas, mas a Minha Preferida gostava de se revoltar, enquanto a Outra era certinha em tudo.
As duas eram muito diferentes, mas só a Minha Preferida parecia entender, e tentava acentuar o máximo possível essa diferença. Minha Preferida sempre procurava fugir da irmã, que a perseguia. E já não bastando serem gêmeas, a Outra procurava andar como siamêssas.
A Outra tocava piano desde os quatro anos, instrumento que eu mesmo lhe ensinara no começo, e pelo qual era completamente apaixonado. Mas a Minha Preferida dançava balé. Talvez por ser diferente de mim e não ter os meus defeitos, acabei me encantando mais por seus pés com sapatilhas do que pelos dedos em harmonia perfeita da Outra. E mesmo quando Minha Preferida trocou a dança pela guitarra, cresci meu gosto por rock e aprendi a gostar dos barulhos e ruídos que fazia durante a tarde. Alguns me diziam que ela estava ficando rebelde de mais, mudara o corte de cabelo e o jeito de vestir, a fim de criar uma personalidade, que obviamente, fosse diferente da irmã. Mas não me importava, gostava do seu jeito adolescente de ser, sempre me surpreendendo e aprontando. Enquanto a Outra, era a filha perfeita que um dia percebi rejeitar.
Com o tempo entendi que filhos não se comparam e aprendi a amar as duas iguais. E sem gostando mais de uma do que da outra.
Hoje, depois de anos, ambas já crescidas e casadas, espero-as pra jantar. Reservo o lugar do meu lado pra Minha Preferida, que deixou de ser preferida, e junto ao prato, de presente, um anel de ouro simbólico, com um embrulho que eu mesmo preparei. E do outro lado da mesa, o lugar da Outra, com uma bijoteria que achei pela casa, num lindo pacote florido de supermercado.

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