Minha querida,
Nessa carta não falarei do tempo, nem das águas cristalinas dos rios ou de como me encanto com as borboletas em segundas-feiras.
Tenho algo mais importante a revelar. Venho por meio dessa lhe informar que estou enloquecendo. E não é em vão que tomo conclusão desse fato, acredite. Na carta anterior pensei em lhe avisar, mas me parecia recíproco demais. Agora tenho certeza. Não há mais o que fazer. Não precisas perder tempo com qualquer tentativa de recuperar minha sanidade - ela está se indo de vez. Sei que deves se perguntar da onde tirei tal absurdo, mas nem eu mesmo sei. Apenas sinto a noção de realidade saindo completamente de mim. Não querida, não são os chás que andei fazendo com minhas plantações. Ou talvez sejam, mas não há antidotos mesmo. Temo que sejam coisas da minha mente que me dizem isso, em todo caso se confirmar-se, seria só mais uma prova do que lhe confesso.
As tardes sem tua presença tem me feito mal, querida, eu sinto sua falta. Não se preocupe, a perda da minha consciência não me trará a morte tão cedo. Lamento informar, terá que se acustumar com algumas coisas. Não serei mais o que custumava ser, apenas só mais um desses poetas sonhadores. Mas não nego, é encantador a proposta de me tornar totalmente um deles, coisa que desejei a vida inteira. Não desse modo, ambos sabemos, mas agora é inevitável. Está tudo feito, e talvez, admito, sejam tuas as culpas. Sabes como me confundes toda vez que te vejo, e que ao longo desses dias em que não pude olhar teus cabelos lisos tenho me tornado mais amargo e triste. Sempre lidei bem com a solidão, mesmo quando ainda a tinha comigo. Vivias se esquecendo de mim e meus pensamentos se afundavam sozinhos, até quando nossa sala permanecia cheia de visitas agradáveis. Mas agora não quero me prolongar nesse assunto, minha querida. Sabes que tenho total carinho por ti, e não pretendo perdê-lo, mesmo quando rejeitas minhas cartas por meses.
Espero que essa carta lhe toque, não por estar ficando louco, mas pela tamanha sinceridade que expresso. Nunca foi qualidade minha ser assim, embora sempre tenha me esforçado. Sim, querida, sei que sempre me quis sincero, e agora que em partes assim me torno, gostarias que conversassemos mais. Talvez seja pedir muito, mas se prestares atenção em mim, verás que não. Sou digno de teu respeito, e se me permite dizer, de tuas respostas, que espero ansioso.
Começo por encerrar - embora seja meio contraditório - este que o lê. Pois minha vista está cansada e os primeiros sinais da loucura vêm me invadindo. Volto a pedir que não se preocupe comigo, continuarei mandando notícias enquanto ainda tiver lucidez para chegar ao correio.
Com meus sinceros afetos(que conheces muito bem),
Antônio.
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Um comentário:
Cuida da praia, Lu. Até o dia 9.
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