Parou. Olho pros dois lados com os olhos esbugalhados. Nada.Sentou ainda perplexa no meio-fio, ficou contente de não encontrar ninguém no caminho do consultório até ali.
Abriu a bolsa com cuidado, viu cair a agenda. Deixou que rolasse até que aberta cessasse, esmagando todas, ou se não muitas das páginas, que cuidadosamente anotara o telefone de quem algum dia lhe fez sentido, mas não faziam mais. Tentou ainda pensar em uma excessão, alguém que pudesse ligar e confessar seus pecados, não encontrou. Nenhum deles, todos imundos em seus mundos hipócritas. Queimou com os olhos a agenda cinza-cor-de-solidão, e depois queimou o dedo pegando o esqueiro, para então, e diria finalmente, transformar aquelas páginas, de A a Z, em apenas cinzas.
Contemplou a rua, ensaiou risadas, virou-se para si, e viu em seu próprio colo o que tanto procurava. Segurou com força a caneta, e fez a lista de coisas que ainda tinha que fazer. Triunfante, ergueu os olhos o mais alto que pode e visualizou o céu encantada, pensou não ser forte o suficiente, caiu sobre seus ombros, culpada, mais desiludida que culpada, mas ainda sim morrendo. Bateu os pés com força, com tanta força que seus sapatos se afundaram, abaixou a cabeça como se a raiva viesse de cima, e de alguma forma fizesse sentido desviar-se. Respirava alto tentando provar que estava viva, que não morria aos poucos, que seu coração ainda estava inteiro e que tudo que haviam lhe dito a meia hora átras era mentira.
Então é isso, pensou, mas negou qualquer aceitação, e por alguns instantes tentou acreditar que tudo fosse apenas um sonho. Ilusão. Todas essas pequenas doenças nesses últimos meses eram apenas uma amostra da original, sabia onde tudo acabaria, qualquer que fosse o caminho percorrido, não tinha mais escolhas. Aids. Ela, portadora do vírus HIV.
Fechou os olhos para que não escutasse mais os gritos e assim esquecesse que existiam, se pôs de pé, olhou pra cima outra vez. Tudo bem ser frágil, bem frágil, parecia necessário no momento. Recuou um passo pra trás, não pegando impulso, mas como uma tentativa de ficar mais longe do destino. Com o desespero transbordando pelos lábios, deixou que lançasse a caneta que tinha na mão o mais longe possível, enquanto seu corpo desabava e seus olhos se enchiam de rios.
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2 comentários:
bela invenção sua, eim? :)
sim, são minhas todas as coisas publicadas no amarelo, aliás, como o achou?
qual a diferença desse para o outro blog seu além do que tem escrito?
Me sinto tão lisonjeado por conhecê-la quando leio o que você escreve...
Você escreve bem demais!
Eu atualizei meu blog... com algo bobo, chato de ler e qua, provavelmente, eu fiz pra que eu mesmo lesse. Mas logo posto algo que julgo melhor...
Não acredito que estou de férias finalmente!
Eu sinto que agora voltarei e voltarei e voltarei várias vezes aqui...
E também postarei mais...
Denovo: tudo o que li hoje aqui me emocionou de alguma forma... (não lia desde "Sexta Série"
perfeito!
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