Carolina dançava as três da tarde. Em todas as tardes. Todos os meses. Durante muito tempo, Carolina chorava movimentos.
Enquanto eu via do outro lado da rua, as lágrimas desenhadas no ar pareciam ficar cravadas aonde ela colocasse o braço, a perna, aonde seu corpo invadia, a lágrima ficava. E não havia mistério, era tão simples entendê-la, que se não dançasse tão bonito diria até que era entediante passar aquelas horas ali mirando-a do quinto andar.
No começo eu espiava de relance, quando passava pela janela. Menina triste dançando. Comecei então a inventar desculpas pra alcançar a vista dela, trocando coisas lá e aqui só pra conseguir passar pela janela e vê-la dançar. E nem a achava bonita e também sua dança me parecia estranha de mais.
Teve um dia que me peguei parado, imovél, só admirando a sua beleza oculta.
Por trás daqueles cabelos compridos tinha um rosto fino e sincero, mas que se escondiam. Recorria então a dança dela, mas no entanto ela também se escondia. Os movimentos pareciam ser cortados e envergonhada ela reprimia o choro. Comecei a observá-la sempre que podia, e a enfeitava com batom e uma voz doce, tentando tornar mais apetitosa a sua aparência.
Certa vez, já acustumado a esperar por ela as três horas, Carolina não apareceu. Talvez ela tenha cresido e a deixado pra lá a dança, pensei. Tinha notado que seus movimentos desenhavam o ar com muito mais desenvolver e sedução e sem a vergonha que a reprimia antes. Seus seios estavam fartos e vez e outra usava maquiagem, mas nunca a olhara como uma futura mulher, apenas como uma eterna menina que dançava para mim na frente do espelho.
Voltei na tarde seguinte, e na outra e em todas as que sucederam, mas o máximo que consigui, foi vê-la consagrando o próprio reflexo, conferindo a roupa antes de sair.
Agora deve dançar por aí, em uma dessas boates onde as mulheres bailam a noite toda. E tem os cabelos curtos e espivetados, reforçando sua independência e feminilidade. Misturado entre suas coisas no quarto se encontra o espelho, rachado no canto, marcando a minha velhice e a passagem da infância dela.
Algumas vezes ainda me esqueço que ela virou uma mulher, e insisto em esperá-la as três da tarde. Outras apenas tenho a esperança de que se arrependa e volte a dançar pra mim. Enquanto na verdade eu sei que agora ela dança por aí para todos os homens, não mais na inocência e poesia que o fazia nas tardes em que eu a olhava, mas com intenção de conquistar corações, enquanto destrói o meu.
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4 comentários:
Nenhuma mentira.
Muito bom, poesia.
eu nao entendi muito bem o proposito desse texto... embora como os outros, nao conssigo parar de ler depois de ter iniciado a leitura O.O
beeeijos xD
de todos, esse foi o que mais gostei...
eu gostava mais da outra carolina, sabe?
Minhas janelas são forçadas a serem digitais...
Mas a beleza com qual a Luisa dança é estonteante.
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